Querida, Vou Comprar Cigarros E Já Volto, Mariano Cóhn e Gastón Duprat, 2011




Este filme argentino se desenvolve em torno de Ernesto, homem rancoroso e frustrado que é abordado por um estranho imortal e poderoso, e este lhe faz uma proposta: reviver 10 anos de sua vida, e em troca, Ernesto receberá 1 milhão de dólares. Apesar de muitos acertos técnicos e opções estéticas interessantes, trata-se de uma produção de qualidade mediana, tendo sua maior força no enredo descontraído com momentos muy contundentes.

O longa tem presença constante de narração em off, mas esta não cumpre apenas a função de explicar o enredo. O próprio Alberto Laiseca, autor do conto que originou o longa, comenta a história e interage com ela, funcionando em conjunto com os personagens, e também xingando-os sempre que possível. Além dele, há o voice over que representa os pensamentos de Ernesto, que conforme suas desventuras se desenrolam, se tornam mais conturbados e pesarosos que no início. Por fim, até mesmo o Imortal compartilha seus pensamentos com o espectador em dados momentos.

Nenhum dos personagens do longa desperta simpatia, exceto pelo excêntrico autor-narrador. São todos seres bastante naturais, humanos, e Laiseca abusou disso fazendo-os desprezíveis, todos. Após alguns minutos acompanhando o olhar ranzinza de Ernesto, o espectador é induzido a compartilhar de seus preconceitos e desamores, e é difícil conter o ímpeto de xingar todas as pessoas que vêm e que vão. Laiseca revela um pouco de si mesmo a cada nova aparição, e sua visão do mundo, da passagem do tempo e das pessoas constitui o núcleo significativo do longa.

“Este é um mundo mágico, e não se pode imaginar o que não existe”, diz Alberto Laiseca. Estes dizeres podem não fazer sentido sozinhos, podem não ter tanto impacto no enredo, mas é notável o impacto que têm na estética adotada na produção, e no tratamento que o par de diretores dá ao roteiro. É o primeiro acerto do filme, não dar atenção, justificativa ou explicação aos elementos sobrenaturais. Eles estão presentes, e isso é tudo o que importa. Sem arriscar-se em efeitos especiais desnecessários, a montagem do filme lhe confere uma unidade ausente em muitas superproduções, e o pouco caso que se faz dos elementos fantásticos é quase cômico. Há inclusive um cuidado reconfortante em escapar dos efeitos sonoros usuais para reforçar a sobrenaturalidade do que exibem os planos, e toda a produção tem um ar de descontração, leveza, pureza e até mesmo originalidade.

A trilha sonora do filme foi bem construída e utilizada decentemente, pois mesmo com as ocasionais repetições, a música não cansa o espectador. A edição de som eficiente consegue atrelar os efeitos sonoros, os voice overs e a música como se fossem uma coisa só.

Com o passar do tempo, Laiseca ganha cada vez mais importância para o enredo, e sua história se confunde e se mescla com a de seu personagem, de modo que o autor e sua personalidade jocosa e desbocada tornam-se mais interessantes que o destino de Ernesto, este descrito pelo Imortal como um homem “medíocre, mesquinho e egoísta”, capaz de causar mais dano que os mais temíveis déspotas da História.

(Rodrigo S. Pereira)

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