Reflexão: Querida (...), O Espelho e o passado.

“Passado”. Diz o dicionário que significa “o tempo que passou”, e ainda, “a vida passada”.
Passou. Perdeu-se?

Querida, Vou Comprar Cigarros E Já Volto é o quarto longa de ficção da dupla de cineastas argentinos Mariano Cóhn e Gastón Duprat. O roteiro é baseado no conto homônimo escrito por Alberto Laiseca, escritor que a dupla conheceu enquanto filmavam seu documentário experimental (em 1996) Enciclopedia, como afirma Duprat em entrevista para Cynthia García Calvo, para LatAm cinema, de Buenos Aires. Os cineastas já vinham adquirindo visibilidade por um trabalho popular e de qualidade, o que admiram em profissionais como o próprio Alberto Laiseca, além de Quentin Tarantino e George Lucas (como Duprat afirma na mesma entrevista supracitada).
O longa conta uma história de fantasia protagonizada por Ernesto (Emilio Disi) e narrada pelo próprio Laiseca. Um retorno ao passado, uma jornada dolorosa e solitária. Passado de quem? De Ernesto, de Laiseca ou da Argentina? São as dificuldades de conexão de Ernesto, seu fracasso profissional ou suas convicções – fé, ciência e política – seu estandarte nesta desventura?
Ser “tecnicamente” incapaz de modificar seu passado lança o protagonista num abismo. Suas mágoas e o rancor que nutre acabam por consumi-lo, e seu orgulho e egocentrismo são os primeiros degraus de sua ruína. Seu passado é doloroso, é um fardo. Suas memórias latejam em sua mente, suas feridas sangram (Emilio Disi consegue transmitir essas sensações apenas na construção de seu semblante. Seu olhar é de morte).
É notável o esforço que fizeram o escritor, os diretores e o roteirista, Andrés Duprat (irmão de Gastón), para analisar, expor e alfinetar a sociedade argentina. Para um expectador de outro lugar restam o enredo e as reflexões humanas, destas que transcendem as fronteiras geopolíticas. O enredo é simples, tem toques de toda sorte de gênero. As reflexões vêm nas costas de personagens, destes que de tão simples tornam-se mais complexos, aqueles que parecem com seu vizinho, com sua tia. E como a jornada ao passado a que se lança Ernesto é rica de personagens humanos, apenas humanos, não faltam reflexões ao espectador atento.

Há sempre mais passado enterrado no passado que ousamos lembrar.

Mais de um quarto de século antes, do outro lado do mundo, Andrei Tarkovsky criou O Espelho, filme enigmático – e com este adjetivo, não afirmo haver uma “resposta” – que trabalha paralelamente com passado e futuro. O próprio tempo parece fluir de forma diferente conforme mergulhamos em extratos de memórias, tão incertas como sonhos, e os sonhos, tão concretos quanto a realidade.
Uma das maiores realizações cinematográficas existentes, O Espelho não faz sentido. É absurdo e intrigante de uma forma que provavelmente nenhum cineasta que não Tarkovsky poderia conceber. Um filme “megalomaniacamente” íntimo, estratosfericamente profundo (?), deve ser revisto quantas vezes for possível.
Não há como limitar Zerkalo a uma temática, e é injusto imaginar qualquer comparação entre este e o filme da dupla Cóhn-Duprat. Enquanto o passado de Ernesto é duro e imutável, e rege sua jornada, Tarkovsky se apropria do passado e do próprio Tempo para proporcionar uma viagem introspectiva, tentadora e perigosa. Não é um homem que se expõe na tela, não são memórias de um personagem, não é a história do cineasta.
Há todo um Homem ali, passando, e que Tarkovsky não deixa que se perca.

(Gabriel Cardoso e Rodrigo S. Pereira)

2 comentários:

  1. Rodrigo, não entendi direito essa parte: "Não é um homem que se expõe na tela, não são memórias de um personagem, não é a história do cineasta.
    Há todo um Homem ali, passando, e que Tarkovsky não deixa que se perca".

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  2. Mario, experimente reverter as negativas em acréscimos, como pontos de vista. Este trecho foi inspirado pela introdução de "Esculpir O Tempo", em que Tarkovsky expõe alguns relatos de espectadores indignados/ admirados por O Espelho, e dá pistas de suas intenções não (só) com este filme, mas em toda sua obra.

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