Amarcord, Federico Fellini, 1973

Estranho pensar em como Amarcord independe de conhecimento prévio. O filme nos traz (mas não se define por) um emaranhado de memórias de seus personagens, sendo talvez sua constante a cidade de Rimini, onde nasceu e cresceu Fellini. É assustadora sua capacidade de conquista. Aparentemente sem esforço para construir uma narrativa ou estabelecer personagens, o filme pouco a pouco torna-se aceitável, então inteligível, e então adorável. Como? As memórias aqui retratadas são bastante específicas, portanto a identificação, a princípio, não é fácil. Mas com espantosa precisão cinematográfica, Fellini permite o descarte dos detalhes e a fruição daquelas emoções como se fosse natural, como se aquela nostalgia fosse nossa. A nostalgia é a protagonista, não a cidade de Rimini, muito menos Titta, dito alter ego do diretor. O caráter episódico da trama provavelmente me incomodaria muito caso o foco fosse esse garoto matreiro e suas desventuras. Felizmente Amarcord oferece muito mais que isso, permitindo-nos vaguear por memória e imaginação de uma vez só, desde a passagem do transatlântico Rex – e aparição do famoso "mar de plástico" que em grande parte contribuiu para que o adjetivo "felliniano" fosse cunhado – até imagens menos manipuladas e, curiosamente, mais oníricas, como o tio louco no topo de uma árvore berrando seu desejo por uma mulher.

Eu, com pouca vivência de Fellini, devo dizer que me parece uma leitura muito rasa chamar Amarcord de autobiográfico. De início, tendo isso em mente, eu só podia pensar em Hitchcock, que em seu papo com François Truffaut afirmou: "na construção da estória, os italianos são muito lambões. Eles simplesmente flanam por ela" (apud CAMPOS, Flavio de. Roteiro de cinema e televisão - A arte e a técnica de imaginar, perceber e narrar uma estória. 2ª Edição, 2009. Jorge Zahar Editor). Há como negar isso, assistindo Amarcord? Diabos, não, não há. Mas houve uma grande mudança de perspectiva em algum ponto próximo da metade do filme: não parecia um defeito, que era como eu encarava (peço perdão). De repente aquela infinidade de personagens aparentemente desconexos pareceu fazer sentido. Eu os conhecia, relacionava nome ao rosto e sabia o que esperar deles. Amarcord transcende os limites de apresentação, narração e desenvolvimento dramático, sem se delongar no drama ou na comédia, flertando com emoções extremas com seu tema musical sedutor. Ao mesmo tempo que essa música serve para criar empatia com aquelas memórias, gera um distanciamento que considero essencial para que Amarcord funcione como um todo. E funciona, nossa, como funciona!

Para mim é desnecessário buscar em Amarcord o significado de seus devaneios, o pertencimento ou identificação daquelas memórias. Não tivessem me dito anteriormente, eu sequer pensaria em Titta como representação do diretor (não era na verdade um amigo dele em Rimini?), muito menos como protagonista (ainda que o Titta real tenha se tornado advogado, e o Advogado seja uma figura um tanto especial no filme) – classificação que negarei com veemência até ver mais filmes de Fellini e, quem sabe, descobrir que este é o protagonismo felliniano. O conhecimento prévio dos trejeitos cinematográficos de "Fefe" – sim, mais de uma vez assisti Sob O Sol Da Toscana (Audrey Wells, 2003) – ou dos detalhes de sua vida que são retratados em Amarcord me parece não somente desnecessário, mas prejudicial à fruição. Há muito carinho, nostalgia e bom-humor no filme, e dar nomes aos bois cria uma distância (espacial e temporal) muito grande. Grande demais, a meu ver, para receber o discurso sobre família, sobre casamento, amor, paixão, sobre viver e sobre morrer – em meio a uma densa bruma, não há muito o que se pensar da morte – sobre sensualidade, sexualidade e sexo, sobre alegrias e tristezas, sobre infância, adolescência, sobre rejeição e sobre solidão, e como tudo faz parte de nossa vida de uma forma preocupantemente uniforme.

Há algo de esférico na estrutura de Amarcord. Não, não circular, mas esférico, se desenvolvendo em muitas direções e sentidos que não se tangenciam nem concorrem. Em cada um desses infinitos segmentos há um entusiasmo de certa forma infantil, um prazer que não vem do objeto da memória, mas da própria memória. Para mim, portanto, Amarcord não é um filme de memórias, mas um filme sobre lembrar, e ainda assim dificilmente posso dizer que é "só isso" que acho dele, mas talvez minhas outras conjecturas caibam melhor num debate, ou numa conversa de bar, quem sabe? Amarcord merece muito mais palavras escritas, ou então um relato muito mais descompromissado, e cá estou eu perdido entre estes.

(Rodrigo S. Pereira)

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