Estranho
pensar em como Amarcord
independe de conhecimento prévio. O filme nos traz (mas não se
define por) um emaranhado de memórias de seus personagens, sendo
talvez sua constante a cidade de Rimini, onde nasceu e cresceu
Fellini. É assustadora sua capacidade de conquista.
Aparentemente sem esforço para construir uma narrativa ou
estabelecer personagens, o filme pouco a pouco torna-se aceitável,
então inteligível, e então adorável. Como? As memórias aqui
retratadas são bastante específicas, portanto a identificação, a
princípio, não é fácil. Mas com espantosa precisão
cinematográfica, Fellini permite o descarte dos detalhes e a fruição
daquelas emoções como se fosse natural, como se aquela nostalgia
fosse nossa. A nostalgia é a protagonista, não a cidade de Rimini,
muito menos Titta, dito alter ego do diretor. O caráter episódico
da trama provavelmente me incomodaria muito caso o foco fosse esse
garoto matreiro e suas desventuras. Felizmente Amarcord
oferece muito mais que isso, permitindo-nos vaguear por memória e
imaginação de uma vez só, desde a passagem do transatlântico Rex
– e aparição do famoso "mar de plástico" que em grande
parte contribuiu para que o adjetivo "felliniano" fosse
cunhado – até imagens menos manipuladas e, curiosamente, mais
oníricas, como o tio louco no topo de uma árvore berrando seu
desejo por uma mulher.
Eu,
com pouca vivência de Fellini, devo dizer que me parece uma leitura
muito rasa chamar Amarcord
de autobiográfico. De início, tendo isso em mente, eu só podia
pensar em Hitchcock, que em seu papo com François Truffaut afirmou:
"na construção da estória, os italianos são muito
lambões. Eles simplesmente flanam por ela" (apud CAMPOS, Flavio de. Roteiro de cinema e televisão - A arte e a técnica de imaginar, perceber e narrar uma estória. 2ª Edição, 2009. Jorge Zahar Editor).
Há como negar isso, assistindo Amarcord?
Diabos, não, não há. Mas houve uma grande mudança de perspectiva
em algum ponto próximo da metade do filme: não parecia um defeito,
que era como eu encarava (peço perdão). De repente aquela
infinidade de personagens aparentemente desconexos pareceu fazer
sentido. Eu os conhecia, relacionava nome ao rosto e sabia o que
esperar deles. Amarcord
transcende os limites de apresentação, narração e desenvolvimento
dramático, sem se delongar no drama ou na comédia, flertando com
emoções extremas com seu tema musical sedutor. Ao mesmo tempo que
essa música serve para criar empatia com aquelas memórias, gera um
distanciamento que considero essencial para que Amarcord
funcione como um todo. E funciona, nossa, como funciona!
Para
mim é desnecessário buscar em Amarcord
o significado de seus devaneios, o pertencimento ou identificação
daquelas memórias. Não tivessem me dito anteriormente, eu sequer
pensaria em Titta como representação do diretor (não era na
verdade um amigo dele em Rimini?), muito menos como protagonista
(ainda que o Titta real tenha se tornado advogado, e o Advogado seja
uma figura um tanto especial no filme) – classificação que
negarei com veemência até ver mais filmes de Fellini e, quem sabe,
descobrir que este é o protagonismo felliniano. O conhecimento
prévio dos trejeitos cinematográficos de "Fefe" – sim,
mais de uma vez assisti Sob O Sol Da Toscana
(Audrey Wells, 2003) – ou dos detalhes de sua vida que são
retratados em Amarcord
me parece não somente desnecessário, mas prejudicial à fruição.
Há muito carinho, nostalgia e bom-humor no filme, e dar nomes aos
bois cria uma distância (espacial e temporal) muito grande. Grande
demais, a meu ver, para receber o discurso sobre família, sobre
casamento, amor, paixão, sobre viver e sobre morrer – em meio a
uma densa bruma, não há muito o que se pensar da morte – sobre
sensualidade, sexualidade e sexo,
sobre alegrias e tristezas, sobre infância, adolescência, sobre rejeição e sobre solidão, e como tudo faz parte de nossa vida de uma
forma preocupantemente uniforme.
Há
algo de esférico na estrutura de Amarcord.
Não, não circular, mas esférico,
se desenvolvendo em muitas direções e sentidos que não se
tangenciam nem concorrem. Em cada um desses infinitos segmentos há
um entusiasmo de certa forma infantil, um prazer que não vem do
objeto da memória, mas da própria memória. Para mim, portanto,
Amarcord não é um
filme de memórias, mas um filme sobre lembrar, e ainda assim
dificilmente posso dizer que é "só isso" que acho dele,
mas talvez minhas outras conjecturas caibam melhor num debate, ou
numa conversa de bar, quem sabe? Amarcord
merece muito mais palavras escritas, ou então um relato muito mais
descompromissado, e cá estou eu perdido entre estes.
(Rodrigo S. Pereira)
(Rodrigo S. Pereira)
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