Sala de Música (Jalsaghar), Satyajit Ray, 1958

Lá de cima, o nobre lustre observa a fragilidade das antigas tradições, sabendo que também será afetado por teias de aranhas e instabilidade. A sala de música, personagem principal do filme, possui o dom da sedução, e seu alvo favorito é seu próprio dono. O poderoso senhor Roy (Chhabi Biswas) gasta cada centavo de sua fortuna em eventos e luxos que um nobre deve ter para manter a aparência diante da sociedade. A sedução é tão intensa e insana que Roy esvazia o cofre da família com música e comes e bebes para os eventos. Diante do ócio, o nobre se ocupava somente de música e com o ofício de ser da nobreza.

Porém tudo isso não se passa de um flashback. De volta para o presente, o ócio é sua única alternativa, tendo em vista que a sala de música está fechada com fortes cadeados de tristeza. Mas a chave para abri-los aparenta ser a competição entre a tradição e a modernidade. Ao se sentir menosprezado por um agiota (Gangapada Basu), Roy acorda do coma ocioso e volta para sua sala preferida e intocada por um bom tempo. Resolve tirar as teias de aranha e poeiras que repousam sob a tradição.

O cenário principal possui um grande espelho que adora duplicar as cenas mais marcantes. Ele duplica a satisfação de Roy diante dos melhores músicos da região e dobra a vivacidade da dança de Krishna Bai (Roshan Kumari). Mas nunca um reflexo foi tão doloroso como foi o do nobre Roy ao perceber que estava mais velho. Ele tira a poeira do espelho desesperadamente, mas descobre que não somente as tradições tinham envelhecido, mas ele também.

É curioso o modo em que Satyajit Ray nos conduz pela mão por dentro das lembranças do seu personagem principal. O longa-metragem passa rápido como um curta, e o tempo se dissipa com tantas músicas. Depois de entender os motivos de Roy ser tão infeliz, o espectador busca alguma solução tentando inocentemente ajudar o personagem, mas se tão sem saída e frustrado como ele. Ele não é somente um integrante da nobreza, é também um ser humano transtornado. Possui apenas dois servos dedicados e uma sala de música. Suas ambições, alegrias, excitações, e orgulho estão todos guardados na tão citada sala. Será uma boa ideia reabrir a porta da sala de Pandora?

(Camille Reis)

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