Eu, eu mesmo, Fellini.

Numa carreira de quase cinco décadas, Federico Fellini se tornou um dos mais famosos e influentes cineastas da história do cinema. Começou como roteirista, colaborando com diretores neorrealistas como Roberto Rossellini, para depois passar a dirigir seus próprios roteiros - ainda com características neorrealistas. A partir dos anos 60, seu estilo de imagem barroca se misturaria com tramas fantasiosas e delirantes. Independentemente da época, Fellini sempre teve o poder de transformar crises psicológicas ou memórias pessoais em filmes poderosos, facilmente conectáveis com o espectador. Seu maior triunfo foi construir filmes íntimos, mas que não deixam de ser universais.

Em filmes como Amarcord (1973) e Os Boas-Vidas (1953), Fellini retratou Rimini, sua cidade natal. Ambientando durante o fascismo, Amarcord tem como protagonista Titta, alter ego de Fellini, e é através de Titta que o diretor reflete sobre a vida familiar e nos apresenta diversos personagens – ou caricaturas de personagens - comuns à sua infância. Apesar de ser ambientado durante a época do governo fascista de Mussolini – e não ignorar este acontecimento -, Amarcord passa longe de ser um filme de cunho político, se focando em lembranças da juventude impregnadas de nostalgia. Em Os Boas-Vidas, é retratada a fase adulta de Fellini e sua saída de Rimini através da estória de um grupo de amigos que passam a ter dificuldades ao encarar as responsabilidades da maturidade. Aqui o alter ego de Fellini é Moraldo, o único dos amigos que deixa Rimini e vai para Roma – mais tarde este personagem se tornaria protagonista do filme Roma (1972). A iniciação sexual por prostitutas, os jantares animados, as confusões familiares, todas essas temáticas são constantes nestes filmes.

Dois dos filmes mais famosos de Fellini saíram de problemas e crises pessoais, A Doce Vida (1960) e  (1963), ambos estrelados por Marcello Mastroianni. Seu casamento estava uma bagunça, e crises depressivas, artísticas e existenciais eram frequentes. A partir do caos, Fellini criou suas obras-primas. A Doce Vida narra à estória de Marcello, um colunista social que vaga em meio aos boêmios italianos de vida vazia, enquanto tenta achar um sentido para a sua. Em , Fellini foi ainda mais longe. Ao contar a estória de um diretor de cinema em crise artística, fez uma das reflexões mais profundas sobre o processo criativo já vistas no cinema, que resultou naquele que é amplamente considerado o melhor filme sobre fazer filmes. Em ambos os filmes os protagonistas passam por uma crise matrimonial e existencial, sem um ponto final propriamente dito apontado pela narrativa. O desgaste matrimonial seria explorado mais a fundo em Julieta dos Espíritos (1965), inspirado nos casos extraconjugais de Fellini. Os dois acabam aprendendo a conviver com os problemas e seguem suas vidas. Porém, enquanto A Doce Vida é sobre uma crise existencial, 8 ½está mais perto de ser uma reflexão artística. A Doce Vida marca o fim do período neorrealista de Fellini, passando para uma fase onde ele procura se dedicar a seus filmes com mais sinceridade e honestidade em relação a suas emoções. 8 ½ é o seu primeiro filme onde os sonhos se misturam com a realidade, e em muitas cenas o subconsciente do personagem Guido domina a tela. A falta de rumo do protagonista em relação a seu filme é a mesma de Fellini, que sentia que já havia explorado tudo o que podia no cinema, e era pressionado tanto pelo produtor quanto pela própria mulher. A solução que achou foi revisitar sua vida, e as pessoas que a marcaram. A retrospectiva de Guido sobre sua vida é a mesma do espectador, e é difícil não sentir empatia pelo protagonista.

Graças ao olhar imaginativo, ingênuo e até infantil de seu criador, os filmes de Fellini tinham traços exagerados, fantasiosos e caricatos. Não há distinção ou separação clara entre drama comédia em seus filmes, e até temas pesados como crises existenciais e matrimoniais eram abordados em tom de deboche e brincadeira. Quando passou a desenhar seus sonhos, seus filmes se tornaram ainda mais surreais, sem nunca distanciar o cinema da sua vida. Com seus múltiplos alter egos, Fellini criou personagens memoráveis e inesquecíveis, e é na conexão destes personagens com o espectador que está a maior qualidade destes filmes. Afinal, as crises e constantes rememorações do diretor são comuns a todas as pessoas, o que possibilita contato e empatia especiais do espectador com a narrativa, e até um entendimento melhor de si próprio. Como o próprio Fellini afirmou sobre seu filme mais claramente autobiográfico,  é um filme sobre todos, não só sobre ele.

(Alan Campos Araújo)

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