O mundo de Satyajit Ray


Eu já havia visto A canção da estrada (Pather Panchali, 1955), primeiro filme da trilogia de Apu, de Satyajit Ray, filme que me parecia um dos grandes precursores do Terceiro Cinema, funcionando para mim como porta de entrada exemplar para questões sobre pós-colonialismo e subalternidade, como uma chave teórica perfeita para pensar a constituição de um cinema periférico, como material didático para ver o cinema a partir dos Estudos Culturais (campo no qual vinha atuando intensamente desde o início da minha carreira como professora universitária), quando em janeiro de 2009, pouco após a morte do meu pai, comecei a ler O homem no escuro, do americano Paul Auster. O narrador do romance é um velho jornalista e crítico literário que vai para a casa da filha se recuperar depois de sofrer um acidente. Um dos modos de passar o tempo para este homem é ficar vendo filmes clássicos para depois discuti-los com a neta de 23 anos, estudante de cinema da NYU que acaba de largar a universidade por causa da morte do namorado na guerra do Iraque, se é que não me falha a memória.

O livro me tocou profundamente, não como usualmente os livros de Auster me movem ou mesmo por causa das enormes sintonias que senti com seu narrador enlutado, acuado, no escuro e com suas filha e neta também tomadas pela dor e pela solidão, mas como uma espécie de revelação sobre o mundo do cinema, ou, dito de outra forma, sobre o cinema como o mundo. Katya, a neta, tem uma teoria do cinema:
"Hoje à noite, porém, depois de termos visto três filmes estrangeiros seguidos – A grande ilusão, Ladrões de bicicleta e O mundo de Apu –, Katya fez alguns comentários argutos e incisivos, esboçando uma teoria da criação cinematográfica que me impressionou pela originalidade e perspicácia.
Objetos inanimados, disse ela.
O que têm eles? Perguntei.
Objetos inanimados como formas de expressar emoções humanas. Essa é a linguagem do cinema. Só bons diretores entendem como fazer isso, mas Renoir, De Sica e Ray são três dos melhores diretores, não são?" (AUSTER, 2008, 20)

A descrição que Auster faz das cenas me faria não apenas rever os filmes citados que eu já conhecia (além dos de Renoir e De Sica, outro grande filme que aparece é Conto de Tóquio de Ozu), mas a teoria dos objetos inanimados de Katya me fez correr de volta para A canção da estrada que por sua vez me fez querer ver o segundo filme da trilogia, O invencível (Aparajito, 1956) e finalmente, O mundo de Apu (Apu Sansar, 1959), que desde então passou a ocupar um lugar especial nas minhas listas perpetuamente em mutação de filmes favoritos.

E cada filme da trilogia é uma obra-prima em si: Pather Panchali com seu mergulho no cotidiano rural bengalês e a sutil combinação da estética indiana rasa com o neorrealismo cinematográfico, Aparajito e a descoberta das contradições urbanas em Benares e Calcutá a partir de sofisticadas técnicas de luz e sombras, Apu Sansar e sua imensa humanidade (e dizer mais do que isso talvez diminuísse o impacto e a permanência que o filme tem no meu repertório e, mais ainda, na minha vida). A trilogia de Apu foi me levando a outros filmes de Ray, que também foram formando parte dos meus panteões movediços, circulares e infinitos, dos meus baús de riquezas incalculáveis, das minhas coleções desordenadas de imagens: o rigor trágico de A Sala de Música (Jalsaghar, 1958), a delicadeza de Charulata, a esposa solitária (1964), toda a crueldade e frustração de Kapurush (1965), a modernidade periférica da trilogia de Calcutá (Pratidwandi (1970), Seemabaddha (1971) e Jana Aranya (1975)), o exótico estranhamento de Dias e noites na floresta (Aranyer Din Ratri, 1970)- que tem uma das mais belas sequencias do cinema na cena do jogo de memória -, a política de A casa e o mundo (Ghare Baire, 1984). A partir do meu precário orientalismo, sem conhecer toda a sua filmografia, menos ainda sua contribuição como escritor, dramaturgo e compositor, ainda que grande parte das referências culturais indianas me escape, posso apenas sublinhar o quanto Satyajit Ray (como Ernst Lubitsch, Yasujiro Ozu, Stanley Donen, Jacques Demy, Werner Herzog ou Claire Denis, só para citar uma ínfima lista de cineastas que me movem) reafirmou em mim uma vontade de cinema, simultaneamente na e além da imanência, como diria Ismail Xavier. Uma vontade de cinema na qual a técnica (impecável, rigorosa, exata no caso de Satyajit Ray), a materialidade fílmica (suas imagens e seus sons, suas palavras, seus atores) e a mise en scène estão subjugadas ao mundo, forçam-nos a entrar em contato, a nos maravilhar, assustar e, sobretudo, gostar mais de estar no mundo.

Naquele momento, que talvez tenha sido o mais sombrio, o mais extremamente triste da minha vida, Auster e sua teoria de cinema (ou antes, a de Katya) - que me pareceu sensível, bonita, ainda que limitada e um tanto ingênua como teoria propriamente dita, talvez até porque não seja mesmo uma teoria propriamente dita - me fizeram retomar certos clássicos, rever filmes do cânone mundial, me levaram a olhar mais atentamente os objetos inanimados dos filmes, pequenos detalhes em cena e as suas vinculações com a humanidade. Minha maior dívida, porém, com O homem no escuro se dá porque me ajudou a conhecer melhor a obra de um dos grandes humanistas - e não apenas do cinema - do século XX e colocá-la para sempre junto comigo.

(Angela Prysthon)

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AUSTER, Paul. O homem no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
XAVIER, Ismail. Maquinações do olhar: a cinefilia como "ver além", na imanência. In: MÉDOLA, Ana Sílvia Lopes; ARAÚJO, Denize Correa; BRUNO, Fernanda. (Orgs.). Imagem, visibilidade e cultura midiática. Porto Alegre: Sulina, 2007, 21-45.

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